Artigo Meio ambiente

Dia de Proteção das Florestas: os desafios da restauração ambiental frente às mudanças climáticas

O vice-presidente do Instituto Terra, Juliano Salgado, fala sobre a experiência da organização para reflorestar a Mata Atlântica e o senso de urgência de colocar em prática ações efetivas que podem ajudar a deter a degradação das florestas

©Ivi Roberg


O dia 17 de Julho marca a data de conscientização da importância da preservação das florestas. Juliano Salgado, vice-presidente do Instituto Terra, responde a 4 perguntas sobre o tema. Ele comenta quais são os desafios do trabalho de recuperação ecossistêmica, como a organização vem adaptando sua expertise frente às mudanças climáticas, a missão para reverter a crise ambiental na próxima década e como a tecnologia poderá ajudar na preservação das florestas.

  1. Qual é hoje o principal desafio de iniciativas como as do Instituto Terra que há 24 anos vem trabalhando para a recuperação ecossistêmica da floresta da RPPN Fazenda Bulcão?

Temos um duplo desafio: técnico e financeiro. A parte técnica se deve ao fato de que as mudanças climáticas já podem ser observadas no dia a dia em diversos locais. Em Aimorés/MG, onde o Instituto Terra está localizado, nós medimos dados pluviométricos desde 2001 e descobrimos que hoje a taxa de precipitação já é 40% menor do que há 20 anos. Isso impacta na escolha das espécies a serem plantadas, no assoreamento do solo, aumento de incêndios e por aí vai. Tão logo um método de restauração é dominado, já precisamos fazer ajustes para se adequar às mudanças climáticas. Outro grande desafio é o financiamento às ações de restauração. Para plantar e preservar uma floresta com milhões de árvores, precisamos de uma equipe extensa, insumos, produção de mudas, manutenção e mais. Sempre contamos com patrocinadores e parceiros para viabilizar nossa atividade, mas a quantidade de empresas e governos dispostos a investir, sobretudo em projetos de menor visibilidade que o Instituto Terra, ainda está aquém do necessário.

  1. Como o Instituto Terra vem se adaptando às mudanças climáticas para realizar o trabalho de reflorestamento, que já é referência por aqui e também fora do Brasil?

Restauração ecossistêmica é uma ciência natural. Apesar de conter elementos imponderáveis, é possível mitigar os desafios com um bom planejamento. O que buscamos fazer no Instituto Terra é recuperar biomas completos. A parte mais complicada é o início da restauração em áreas degradadas, pois o capim toma conta onde o solo está empobrecido e é atingido diretamente pela luz do Sol. Por isso, sempre começamos a restauração com o plantio de espécies pioneiras, que chamamos de grupo de recobrimento. Estas crescem rápido e oferecem boa sombra para que possamos plantar espécies secundárias e clímax sob suas copas. Estas últimas pertencem ao grupo que chamamos de “diversidade” e são aquelas árvores que vivem por séculos, como a Peroba, símbolo do Instituto Terra. Junto a isso, promovemos a recuperação de nascentes, recuperando milhares de córregos nos últimos anos. Nas áreas mais maduras em que nossos projetos são desenvolvidos, já podemos notar o surgimento de micro climas mais amenos e favoráveis à evolução dos projetos e processos de restauração natural. É incrível como a natureza se recupera quando conseguimos criar as condições para isto. Em volta do instituto, já vimos muitas nascentes retornarem em lugares onde não havia mais água há muito tempo. Apesar das condições mais difíceis a cada ano que passa, as árvores que plantamos trazem a fauna de volta e a vida para a terra.

  1. Os próximos 10 anos serão cruciais para deter a degradação ambiental e o Instituto Terra assumiu seu posicionamento em 2021, ano que marcou o início da Década da Restauração de Ecossistemas da Organização das Nações Unidas (ONU). Qual será o pilar para as ações que farão o futuro mais sustentável?

Existem inúmeras ações que precisam ser abraçadas por governos, empresas e pela população, mas para nós está cada vez mais claro que a chave para reverter à crise ambiental se encontra em uma profunda mudança de paradigma na produção. O Brasil, por exemplo, segue sendo o segundo maior produtor de gado bovino do mundo. Todo mundo sabe dos impactos negativos que essa atividade tem no meio ambiente: do desmatamento à emissão de gases do efeito estufa. Qual é a alternativa a esse modelo? Dificilmente o produtor irá parar de criar gado, ainda mais considerando a alta do dólar, e dificilmente o consumidor irá parar de consumir. Porém, existem formas de se criar gado associado às florestas e lavouras e preservando nascentes nas propriedades. Modelos agroflorestais como o chamado silvipastoril podem ser uma das grandes mudanças de paradigma para estimular o reflorestamento de áreas enormes e, ao mesmo tempo, aumentar a renda dos próprios produtores rurais, que passarão a ter uma propriedade preservada e mais produtiva e ainda contarão com produtos oriundos do reflorestamento e portanto com maior valor agregado.

  1. Como a tecnologia e a ciência podem ajudar (e estão ajudando) na missão de proteger as florestas?

São inúmeras as potencialidades. Para focar em uma podemos citar a questão dos créditos de carbono. Sabia que hoje para se fazer a certificação de uma área reflorestada para que se possa emitir créditos de carbono o custo gira em torno de 700 mil… dólares? Deste valor, 500 mil se devem apenas às etapas de monitoramento das florestas, que é feita por meio de visitas periódicas de auditores às áreas reflorestadas. Esses valores são totalmente proibitivos para pequenos e médios produtores, haja visto que o investimento só começa a se tornar vantajoso para áreas a partir de mil hectares. Porém, com tecnologias como imagens de satélite, drones com sensor LiDAR, RADAR e inteligência artificial, acreditamos ser possível a criação de modelos algorítmicos capazes de mensurar o incremento de carbono nas áreas de maneira automática, reduzindo esses valores em mais de dois terços. É urgente democratizar a certificação de créditos de carbono e a tecnologia e a ciência podem ser grandes aliadas nesse processo. A partir do momento em que plantar florestas for mais rentável que derrubá-las, teremos a faca e o queijo na mão para reverter a crise ecológica.

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