Por Naiara Bertão, para Um Só Planeta — Aimorés, Minas Gerais
Vocal na defesa da natureza, o renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado não perde a oportunidade de criticar a atuação predatória e destruidora da humanidade e reiterar que não podemos mais ser apenas espectadores da destruição, mas agentes de mudança. E logo. A conscientização sobre a importância não apenas de preservar o que ainda nos resta, mas de aprender a conviver com o meio ambiente sem destruí-lo é uma de suas bandeiras nos projetos do Instituto Terra, fundado por ele e sua esposa, Lélia Deluiz Wanick Salgado, em 1998, em Aimorés, Minas Gerais, próximo à divisa com o Espírito Santo.
Fruto da vontade de promover a transformação do território devastado da Fazenda Bulcão, que pertenceu aos pais de Sebastião, o instituto hoje é referência nacional em restauração ecossistêmica. Nessas quase três décadas, mais de 700 hectares voltaram — literalmente — à vida, com um árduo trabalho de plantio, irrigação, manutenção e conservação de espécies nativas da Mata Atlântica.
Contudo, mais do que servir de exemplo, a família Salgado quer formar multiplicadores do conhecimento acumulado. Para isso, a educação é pilar central da estratégia e se desdobra em três grandes frentes.
Uma delas é a educação ambiental com crianças. O programa Terrinhas, criado em 2008 e retomado em 2023 após um hiato, já formou mais de 80 mil crianças e professores. Só no ano passado, 560 estudantes passaram pelos cursos de sete meses, com encontros mensais no instituto e atividades em sala de aula, abordando temas como a importância da água, conservação da mata ciliar e engajamento comunitário. Ao final, cada criança planta uma árvore de espécie nativa no terreno do instituto.
“Nossa ideia é formar multiplicadores do conteúdo aprendido aqui, por isso, eles precisam, com apoio dos professores que os acompanham no projeto, replicar este conhecimento de alguma forma em suas escolas e comunidades”, conta Thaís Moraes, coordenadora pedagógica do Terrinhas.
Para 2025, a meta é atender 750 crianças e alcançar 2.100 até 2027. Mas a demanda cresce: segundo Thaís, já não é possível receber todas as escolas interessadas, e o instituto estuda expandir o método para dentro das salas de aula.
Outra frente é o Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE), voltado a jovens de até 22 anos com formação técnica no Ensino Médio. O curso integral dura 11 meses, inclui mais de 2 mil horas práticas e teóricas e exige residência no instituto. Os estudantes saem como técnicos em restauração ecossistêmica, muitos com propostas de emprego antes mesmo da formatura.
“Temos a oportunidade de ter vivência prática e nos tornarmos capacitados para conhecer as inter-relações do meio ambiente com todo o resto e trabalhar com isso”, conta uma das alunas.
Ao longo do ano, os jovens recebem hospedagem, alimentação, ajuda de custo, aulas de inglês e suporte pedagógico. O processo seletivo é concorrido: a equipe percorre milhares de quilômetros para divulgar as vagas, que não ultrapassam 26 por turma por limitação física das acomodações.
A terceira frente é o Terra Doce, que atua junto a produtores rurais para conservar e recuperar áreas degradadas, especialmente nascentes e matas ciliares, oferecendo assistência técnica e promovendo sistemas agroflorestais como alternativa sustentável e economicamente viável.
O Instituto Terra já impactou mais de 2 mil famílias e quer chegar a outras 2 mil até 2027. A restauração florestal, para a equipe, não é apenas plantar árvores: é reconstruir relações entre pessoas, solo, água e comunidade — formando cidadãos conscientes e preparados para um futuro que, cada vez mais, exigirá isso de todos.