Somos fruto do sonho de Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado, que diante da degradação ambiental da antiga fazenda de gado da família, decidiram restaurar a floresta que havia aqui e, em 1998, fundaram o Instituto Terra em Aimorés-MG. Recebemos o título de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), concedido de maneira inédita a uma área degradada, mediante o compromisso de ser restaurada. Assim surgiu a RPPN Fazenda Bulcão.
A hora de colocar a mão na massa chegou no período de chuvas seguinte, no verão de 1999/2000. Contamos com a mobilização comunitária de centenas de estudantes da região, amigos, parceiros e, claro, dos nossos primeiros colaboradores. Ainda não tínhamos muito conhecimento técnico, mas com a união de todos e muita força de vontade conseguimos plantar as primeiras 10 mil árvores que seriam a vanguarda dessa nova floresta.
Ao mesmo tempo em que o pasto se transformava em floresta, a fazenda se transformava em ONG e, assim, cada vez mais pessoas vinham trabalhar por aqui. Para abrigar todos esses colaboradores era necessário criar uma sede administrativa e o momento ideal para colocarmos a pedra fundamental do Instituto Terra foi durante uma animada festa que realizamos em novembro.
Uma floresta nativa de Mata Atlântica é repleta de biodiversidade! Para seguir plantando cada vez mais é que inauguramos o nosso viveiro de mudas nativas. Com muitos aprimoramentos desde então, o coração do Instituto Terra se transformou em um viveiro eficiente, capaz de gestar até 500 mil mudas de dezenas de espécies diferentes por ano, utilizando técnicas semimecanizadas e processos manuais sob medida para garantir o desenvolvimento adequado das pequenas árvores.
Replantar uma floresta nativa em uma área tão degradada e sob condições climáticas já tão adversas não era um trabalho fácil, mas aos poucos fomos aprendendo por tentativa e erro e a cada plantio mais mudas vingavam. Para que esse conhecimento pudesse se multiplicar, nós fundamos o Centro de Educação para Restauração Ambiental, uma escola de treinamento em técnicas ecológicas destinada aos produtores rurais, comunidades escolares e técnicos ambientais.
Nosso trabalho com educação rapidamente revelou a demanda que existia na região por uma formação aprofundada na área ambiental. Criamos o NERE com a proposta de oferecer um curso de especialização em restauração ecossistêmica para jovens da bacia do Rio Doce, de modo a que pudessem aprender conosco e devolver este conhecimento ao território, seja na roça da família ou no mercado de trabalho. Com bolsa de estudos e moradia estudantil, os jovens do NERE hoje residem no Instituto Terra durante 1 ano e aprendem sobre restauração florestal, recuperação de nascentes e muito mais.
Cedemos uma área do Instituto Terra para que o museu de arqueologia de Aimorés pudesse ser construído. Em funcionamento desde então, o museu exibe artefatos que remontam a história dos povos indígenas que habitaram a região originalmente e que ainda resistem e lutam pelo direito ao território.
O primeiro monitoramento de fauna conduzido em nossa RPPN mostrou que 172 espécies de aves já haviam retornado à floresta até aquele ano. Junto com elas, toda uma cadeia alimentar com mais 15 espécies de répteis, outras 15 de anfíbios e mais 33 espécies de mamíferos de diversos portes, provando que a restauração do ecossistema já estava trazendo resultados positivos.
Expandimos nossa atuação em educação ambiental para as crianças de escolas públicas da região. O impacto gerado em cada terrinha também era multiplicado em suas famílias, vizinhanças e comunidade escolar. O projeto foi tão positivo que chegou a ser selecionado por duas vezes pela Unesco como projeto modelo de educação ambiental e segue ativo até hoje.
Nossa iniciativa pioneira na promoção de um desenvolvimento rural sustentável na bacia do Rio Doce começou com foco na recuperação de nascentes em pequenas e médias propriedades rurais. Abrimos um escritório de projetos para gerenciar essas ações que, com o tempo, passaram a incluir também a instalação de biodigestores e barraginhas nas propriedades. Premiado na ONU e na ANA, o Olhos D’Água se tornou referência em segurança hídrica na região.
Boatos de que uma jaguatirica havia retornado à nossa floresta começaram a surgir e Sebastião Salgado queria ter certeza de que esse animal, topo da cadeia alimentar, estava de volta ao seu habitat. Nosso parceiro Leonardo Merçon ficou incumbido da missão e após dias embrenhado na mata, conseguiu realizar esse clique histórico, que provou que toda uma cadeia alimentar estava se recompondo por aqui.
O rompimento da barragem de Mariana em 2015 foi o momento mais desafiador para a bacia do Rio Doce. Desde o início, buscamos colocar nossa influência a favor de uma saída positiva com a criação de um fundo para a recuperação da região ao invés de simples multas aplicadas às empresas responsáveis. Além disso, intensificamos o programa Olhos D’Água de várias maneiras, inclusive apoiando o Movimento Todos Pelo Rio Doce, que se mobilizou de forma voluntária pela recuperação de nascentes do Rio Doce.
Com 2.3 milhões de árvores plantadas até o momento, demos início à etapa final de plantio em nossa área original de 709 hectares, a RPPN Fazenda Bulcão, que começamos a restaurar em 1998. O projeto de enriquecimento a ser concluído em 2027, em cooperação com a Zurich Insurance Group (Zurich), prevê o plantio de mais 1 milhão de mudas de ao menos 80 espécies nativas, buscando acelerar a regeneração natural da floresta e garantir a diversidade de espécies.
Para nós é uma honra que nosso trabalho tenha inspirado uma música do mestre da MPB, o imortal Gilberto Gil. Com Refloresta, Gil lançou sua conta no TikTok em campanha que possibilitou o plantio de mais 40 mil árvores no Instituto Terra. A direção do clipe é de Ivi Roberg.
Assumimos a missão de conscientizar nossos visitantes e a nossa comunidade sobre a importância das abelhas nativas para a polinização das florestas e gêneros alimentícios, bem como promover o treinamento dos produtores rurais em técnicas de meliponicultura, estimulando o aumento populacional dos agentes polinizadores e a extração do valioso mel de melípona para geração de renda.
Lançamos o programa Terra Doce para agregar mais ações ao trabalho de recuperação de nascentes, passando a trabalhar com a recuperação de áreas de recarga hídrica, matas ciliares, sistemas silvipastoris e agroflorestais. O Terra Doce é a nossa grande aposta de transformação socioambiental da bacia do Rio Doce e a evolução do antigo programa Olhos D’Água.
Com nossa área original já quase completamente restaurada, adquirimos novas propriedades em nosso entorno também com o apoio da Zurich, ampliando a área total do Instituto Terra para 2.346 hectares. Além de ampliar a área que iremos restaurar nos próximos anos, começamos a construir um novo viveiro com capacidade para até 2 milhões de mudas, que servirá de apoio às ações do Programa Terra Doce.
Em 2025, nos despedimos de Sebastião Salgado, nosso fundador, mentor e inspiração. Seu legado vive na terra que ajudou a restaurar, nas pessoas que tocou com sua visão e nas sementes de futuro que continuamos a plantar. Em meio à dor da perda, renovamos nosso compromisso com os valores que ele nos ensinou: cuidar da natureza, acreditar nas pessoas e sonhar com um mundo mais justo e sustentável. Seguiremos adiante, juntos, com gratidão e propósito.