Não havia sombra. Não havia canto de pássaro. Não havia floresta. Quando o Instituto Terra deu início à restauração da antiga Fazenda Bulcão, o que se via no horizonte era um solo exausto, coberto por capim e silêncios. O que se vê hoje? Mais de 3 milhões de árvores plantadas, mais de 230 espécies de animais de volta, uma nova paisagem — e muitas lições no caminho.
Restaurar um ecossistema inteiro, principalmente num território marcado por degradações históricas e alta sensibilidade climática, como o Vale do Rio Doce, foi um desafio que exigiu tempo, técnica e persistência. “Não foi fácil ao longo dos 27 anos, principalmente no começo, quando não tinha vegetação alguma”, relembra um dos colaboradores em vídeo. “Foram aprendizados, adaptações, treinamentos… e com os desafios, veio a experiência.”
Essa experiência não se dá só no ato de plantar. Começa muito antes, na coleta de sementes feita em fragmentos de Mata Atlântica espalhados num raio de até 200km. É nesse garimpo vegetal que a equipe do Instituto encontra as espécies que vão compor os plantios das novas áreas — e o enriquecimento da vegetação nativa da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
Cada muda tem sua história. Algumas sementes precisam de quebra de dormência térmica, outras são lixadas ou deixadas de molho, tudo de forma artesanal. A diversidade de espécies exige um olhar técnico e cuidadoso sobre o ciclo de cada uma: época de frutificação, taxa de germinação, tempo de crescimento, comportamento ecológico. Em 2024, foram 405 mil mudas gestadas no viveiro do Instituto, com sementes de 138 espécies nativas.
O viveiro, aliás, virou ponto de aprendizado. Programas como o NERE (Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica) e o Terrinhas utilizam o espaço como sala de aula viva. É onde jovens, educadores e futuros técnicos aprendem com a terra, com as folhas, com o tempo.
Mas o impacto ultrapassa os limites da sede. O programa Refloresta — nome que hoje batiza o eixo de restauração ecossistêmica do Instituto — já chegou a novas áreas adquiridas e inspirou ações com parceiros e agricultores da região. “A atividade do Instituto saiu da fazenda. Hoje, temos outras pessoas querendo restaurar, partindo da nossa experiência, que ficou bem sólida e madura”, diz o colaborador.
Ao olhar para trás, o sentimento é de continuidade. O verão de 2027/2028 marcará o encerramento do atual ciclo de enriquecimento florestal, mas a restauração seguirá, agora com um novo viveiro em construção que permitirá aumentar a escala e aprofundar o impacto.
Se uma floresta começa com uma semente, a restauração começa com o compromisso de cuidar — ano após ano, espécie por espécie. E de fazer isso com o olhar voltado para o futuro, mas os pés firmes no chão. Porque restaurar não é só trazer a mata de volta. É garantir que ela fique. E que as próximas gerações saibam por quê.