À frente do projeto KfW, iniciativa integrada ao programa Terra Doce, Gilson vive o dia a dia do trabalho com quem planta o futuro. Em entrevista, ele compartilha os aprendizados do primeiro ano do projeto, os desafios de restaurar ecossistemas sob pressão climática e a aposta na aliança entre conservação e produção para transformar realidades no Vale do Rio Doce.
Gilson, para começar: quando e como surgiu o projeto KfW dentro do Terra Doce?
O projeto começou a tomar forma no fim de 2023, mas 2024 foi mesmo o primeiro ano completo de execução. Desde o início, a gente já sabia que seria uma experiência rica de aprendizado — e foi. Em especial no tema da mobilização. A gente mudou o foco, adotou uma busca ativa mais coletiva, junto às associações, lideranças locais e instituições de assistência técnica.
Essa mudança deu um novo fôlego para o programa logo no primeiro ano. E foi decisiva para atingir os números que conseguimos.
E quais foram os principais resultados alcançados até agora?
A gente tinha uma meta de restaurar 200 hectares, e conseguimos implantar 168 — entre sistemas agroflorestais e silvipastoris. E agora, em 2025, já estamos preparando os primeiros 80 hectares do novo ciclo.
Mais do que os números, o que importa é o modelo: estamos integrando restauração ambiental com produção sustentável. Esse é o grande diferencial do Terra Doce. Estamos mostrando que é possível conservar e produzir ao mesmo tempo, com impacto real para quem vive da terra.
Quais práticas sustentáveis estão sendo aplicadas nas propriedades?
Temos focado em quintais biodiversos, sistemas agroflorestais, e silvipastoris com manejo rotacionado de pastagem. Os carros-chefe são café e cacau, mas também incluímos banana, frutíferas para polpa e outros arranjos que trazem retorno econômico e equilíbrio ecológico.
Nos pastos, por exemplo, fazemos curvas de nível, plantamos árvores nas bordas e dividimos as áreas em pequenos piquetes. O gado circula de forma controlada, o solo descansa, e o pasto se regenera.
Como o clima tem impactado essa dinâmica?
Tem sido um grande desafio. A lógica da chuva mudou completamente no Vale do Rio Doce. Antes, a gente tinha uma seca de três a quatro meses. Agora, são sete, oito, até nove meses secos. E quando chove, é muito em pouco tempo.
A média anual caiu de 1.100mm para 700mm ou 800mm, e isso exige que a gente trabalhe com mais estratégia: conservar água e solo virou prioridade. Recuperar áreas de recarga hídrica, nascentes, matas ciliares — tudo isso faz parte da nossa abordagem.
E como está a recepção dos produtores a esse novo modelo?
No começo houve alguma resistência, o que é natural. Mas agora, estamos vendo uma grande procura. A meta para 2025 era de 80 hectares, mas se acelerássemos, poderíamos até chegar aos 200. Mesmo assim, queremos crescer com cuidado, com constância, para garantir que o modelo seja sólido.
Hoje, temos apoio de lideranças, prefeituras, secretarias, associações locais… Há uma percepção coletiva de que o Terra Doce veio pra ficar. E mais que isso: de que ele pode transformar o Vale do Rio Doce.
Pra encerrar, qual é o maior objetivo do projeto neste segundo ano?
Consolidar. A gente quer continuar com as ações ambientais e, ao mesmo tempo, implantar sistemas produtivos sustentáveis que sirvam de modelo para toda a bacia do Rio Doce. É um passo a passo — plantando mudinha por mudinha, como diz o nosso vídeo-manifesto — mas com fé de que cada gesto é uma semente de transformação.