O Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas e a presença dos povos originários na bacia do Rio Doce
Antes de ser traçado em mapas, o território brasileiro já era vivido, nomeado e cuidado. Suas águas, suas matas e seus ciclos integravam o cotidiano de povos indígenas que, por gerações, aprenderam a se relacionar com a terra a partir da observação, do respeito e da convivência com a natureza.
No dia 7 de fevereiro, quando se celebra o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, essa memória ganha centralidade. A data nos convida a refletir sobre a presença histórica dos povos originários, os desafios enfrentados ao longo do tempo e os saberes que seguem sendo essenciais para pensar o cuidado com o meio ambiente e a vida em comunidade.
Na bacia do Rio Doce, onde o Instituto Terra atua há quase três décadas, essa reflexão passa pelo reconhecimento das comunidades indígenas que mantêm vínculos profundos com o rio, a floresta e a terra — e cuja história ajuda a compreender o presente e a projetar caminhos para o futuro.
Povos originários da bacia do Rio Doce: presença, memória e resistência
Situada entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a bacia do Rio Doce é ancestralmente habitada por diferentes povos. Entre eles estão os Krenak, Tupiniquim, Guarani e Puri, cujas trajetórias revelam formas distintas de ocupação, resistência e permanência.
Os Krenak, também conhecidos como Borun, vivem no médio Rio Doce, entre os municípios de Resplendor e Conselheiro Pena (MG), e mantêm uma relação profunda com o rio, chamado por eles de Watu — o “rio grande”, entendido como um ente de vida, cura e espiritualidade.
Já os povos Tupiniquim e Guarani habitam a região costeira do Espírito Santo, no município de Aracruz, distribuídos em doze aldeias que dependem de rios e cursos d’água ligados à foz do Rio Doce. A diversidade de ecossistemas presentes nessa região, como a floresta de tabuleiro, a restinga e o manguezal, também compõe seus modos de vida.
O povo Puri, por sua vez, tem uma história marcada por deslocamentos e retomadas. Considerados extintos no século XIX, passaram a reafirmar sua identidade a partir dos anos 2000 e hoje vivem em municípios do leste de Minas Gerais, como Aimorés, Resplendor e Itueta.
Uma história marcada pela luta
Ao longo dos séculos, esses povos – e muitos outros – enfrentaram processos contínuos de violência, deslocamento e perda de território, iniciados ainda no período colonial e aprofundados com o passar do tempo. Guerras, políticas de extermínio, apagamento cultural e sucessivas violações de direitos marcaram profundamente suas vidas, impactando suas formas de produzir e se relacionar com a natureza.
É a partir desse percurso histórico que o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas foi instituído: como um convite à reflexão e ao reconhecimento dos povos originários, assim como de seus conhecimentos, não como herança encerrada no passado, mas como práticas vivas, capazes de dialogar com os desafios contemporâneos.
Saberes vivos: língua, território e formas de cuidar da terra
Entre esses legados que atravessam o tempo, destacam-se tanto as marcas linguísticas presentes no território quanto a forma como os povos originários historicamente cultivaram sua relação com a terra.
A toponímia — o estudo da origem e do significado dos nomes de lugares — guarda essa memória viva. O nome da cidade de Aimorés, onde está localizado o Instituto Terra, tem origem indígena e revela como a língua também é expressão de território, presença e pertencimento.
Da mesma forma, muito antes de o termo “agrofloresta” existir, os povos originários já desenvolviam sistemas de cultivo baseados na diversidade, na convivência entre espécies e no cuidado com o solo, integrando produção de alimentos e preservação da floresta.
Essas práticas, construídas a partir da observação atenta dos ciclos naturais, seguem vivas e dialogam diretamente com os desafios contemporâneos da conservação ambiental e da restauração de ecossistemas.
Reconhecer a presença e os saberes dos povos indígenas na bacia do Rio Doce é compreender que a recuperação ambiental não se faz apenas com técnicas, mas também com memória, escuta e respeito aos modos de vida que historicamente cuidaram desse território. No Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, essa reflexão se torna ainda mais necessária para a construção de um futuro ambientalmente equilibrado e socialmente justo.
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