Estruturas simples como barraginhas, caixas secas e cochinhos ajudam produtores da bacia do Rio Doce ao favorecer a infiltração de água no solo
A entrada do outono no hemisfério Sul marca a chegada — ainda que gradual — da seca e do frio. Mudanças na paisagem indicam esse novo ciclo: folhas alaranjadas, solo rachado, pasto perdendo vigor e nascentes com menor fluxo de água mostram que o meio ambiente, a produção agrícola e a comunidade precisam se preparar para os próximos meses.
Um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) projeta que metade da bacia hidrográfica do Rio Doce pode ter suas vazões reduzidas em mais de 91% dentro de 50 anos. Segundo os dados, a principal causa disso — se confirmada — é a redução da pluviosidade.
Diante desse cenário, surge uma pergunta essencial: como lidar com a escassez de água durante períodos de estiagem?
O desafio da seca no campo
Ao longo dos anos, as mudanças climáticas vêm alterando padrões meteorológicos, fazendo com que o planeta Terra esteja cerca de 1,1°C mais quente do que no final do século XIX. Como consequência, eventos como seca e estiagem tornaram-se mais frequentes e intensos.
De acordo com um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), o Brasil perdeu R$ 287 bilhões em produção agrícola e pecuária entre 2013 e 2022 por causa de desastres climáticos. A seca foi responsável por 87% dos prejuízos, sendo a agricultura o setor mais impactado, com 65% do total de danos. Minas Gerais aparece como o terceiro estado mais afetado do país, com perdas estimadas em R$ 24,8 bilhões.
A irregularidade das chuvas leva à escassez de água potável e à quebra de safras, gerando insegurança alimentar. Além disso, a falta de cobertura vegetal agrava o escoamento superficial, provocando erosões nos solos e assoreamento de rios, lagos e represas. Tudo isso impacta diretamente a disponibilidade hídrica, a produção, a renda e a qualidade de vida das pessoas.
Soluções simples que proporcionam segurança hídrica
No campo, existem tecnologias simples e acessíveis que contribuem para aumentar a segurança hídrica. Com diferentes configurações, mas propósitos semelhantes, barraginhas, caixas secas e cochinhos são algumas das soluções que ajudam produtores a enfrentar períodos de seca e estiagem.



Em formato de meia-lua, as barraginhas são pequenas bacias escavadas no solo da propriedade. As caixas secas, por sua vez, são reservatórios quadrados construídos nas margens de estradas rurais e encostas. Já os cochinhos são pequenas trincheiras construídas em nível.
Essas estruturas captam a água da chuva e a retêm por um período, permitindo sua infiltração no solo. Com isso, contribuem para o controle da erosão, reduzem o assoreamento de rios e evitam a degradação de vias. Além disso, favorecem a recarga do lençol freático, ajudam na recuperação de nascentes, aumentam a umidade do solo e auxiliam na manutenção da produção agrícola e pecuária.
Um estudo técnico da HidroBase, realizado para o Instituto Terra, mostra que a adoção dessas práticas em larga escala pode transformar o comportamento hídrico na bacia do Rio Doce. Modelagens indicam uma redução significativa do escoamento superficial e um aumento da infiltração, o que ajuda a sustentar os rios por mais tempo. Em alguns cenários, o volume de sedimentos transportados pode cair quase pela metade, melhorando a qualidade dos cursos d’água.
Esses resultados, no entanto, não são imediatos. Eles dependem do tempo, da escala e da continuidade das ações no território.
Terra Doce: casos reais na bacia do Rio Doce
O programa Terra Doce, iniciativa de desenvolvimento rural sustentável do Instituto Terra, apoia produtores da bacia do Rio Doce na implementação dessas soluções. Ao longo dos últimos anos, agricultores da região vêm adotando essas práticas e relatando resultados positivos no enfrentamento da seca.
Em 2017, o produtor Dirceu Soares decidiu construir sua primeira barraginha após perceber que uma nascente em sua propriedade havia secado. No início, a estrutura ainda era pequena e conseguiu reter água por mais tempo, mas não o suficiente. No ano seguinte, ele ampliou o tamanho, obteve melhores resultados e, desde então, seguiu aprimorando a construção.
“Ela está com mais ou menos 20 m de comprimento, mais de 10 m de largura e 6 m de profundidade. Em 2025, a última chuva veio em março e a seca foi prolongada até dezembro. Minha salvação foi que a água não faltou por causa da barraginha. Eu indico para quem não tem. A pessoa precisa ter paciência, porque o processo é longo até o resultado aparecer, mas, pouco a pouco, é possível alcançar o mesmo êxito que eu tenho hoje”, afirma o produtor.
O relato reforça o que os estudos indicam: quando adotadas de forma consistente e em maior escala, essas soluções acumulam efeitos ao longo dos anos, promovendo mais segurança hídrica, estabilidade produtiva e recuperação ambiental.
Em 2024, o Terra Doce realizou 704 benfeitorias em água e solo, contribuindo para a recuperação de mais de 2.420 nascentes e 120 hectares de áreas de recarga hídrica. Em conjunto com outras soluções, como a implantação de sistemas sustentáveis de produção e biodigestores, o programa já beneficiou 1.484 famílias na bacia do Rio Doce.
Agora, a iniciativa segue ampliando sua atuação, fortalecendo a presença da água no território e aumentando a resiliência das propriedades rurais frente aos períodos de seca. Em um cenário de mudanças climáticas, tecnologias simples como essas mostram que é possível conviver com a estiagem prolongada — e transformar a realidade no campo.
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