Levantamento do MapBiomas Água mostra que quase metade dos municípios brasileiros perdeu área hídrica em 2025
Desde 1985, o Brasil perdeu 2,58 milhões de hectares de superfície de água, uma área maior do que todo o estado de Sergipe. É o que revela o levantamento do MapBiomas Água referente a 2025. O dado reforça um cenário preocupante: a disponibilidade de água está se tornando cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas e à degradação ambiental.
Mais do que uma questão ambiental, essa é uma realidade que afeta diretamente o abastecimento das cidades, a produção de alimentos, a geração de energia e a qualidade de vida da população.
Embora o cenário seja desafiador, ele também evidencia a importância de investir em soluções capazes de fortalecer a segurança hídrica. Entre elas, a restauração de ecossistemas tem se mostrado uma das estratégias mais eficazes para proteger nascentes, recuperar cursos d’água e aumentar a resiliência das paisagens diante das mudanças climáticas.
Fatores que explicam essa realidade
Segundo o MapBiomas Água, a resposta é curta e direta: o Brasil está ficando mais seco. No entanto, diversos fatores contribuem para esse cenário e ajudam a explicar por que a extensão das áreas de água vem diminuindo ao longo das últimas quatro décadas.
Um deles é o El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera os padrões de chuva em diferentes regiões do planeta. No Brasil, ele costuma reduzir as precipitações no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste.
O aquecimento global também exerce forte influência nesse processo. Com temperaturas mais elevadas, aumenta a evaporação da água de rios, lagos, solo e vegetação, resultando em menos água disponível na superfície, mesmo quando o volume de chuvas permanece semelhante.
O desmatamento é outro fator importante e atua de diferentes maneiras. A redução da cobertura vegetal diminui a umidade liberada para a atmosfera, comprometendo a formação de chuvas. Além disso, práticas como queimadas e movimentação intensa do solo favorecem a erosão e o assoreamento, alterando o curso e reduzindo o volume de rios e igarapés.
Diante disso, o alerta do levantamento do MapBiomas Água é claro: se esse conjunto de fatores continuar avançando, a tendência é que a redução das áreas ocupadas por rios e lagos se intensifique nos próximos anos.
Soluções que funcionam como uma caixa d’água natural
Se, por um lado, a degradação ambiental reduz a disponibilidade de água, a recuperação de ecossistemas ajuda a reverter esse cenário. Florestas preservadas ou restauradas favorecem a recarga de nascentes e aquíferos, protegem o solo, reduzem a erosão, diminuem o assoreamento e aumentam a infiltração da água da chuva.
Na prática, uma floresta funciona como uma grande caixa-d’água natural. O solo florestado atua como uma esponja, armazenando água e liberando-a lentamente ao longo do tempo, o que contribui para manter a vazão de rios e córregos mesmo durante os períodos de estiagem.
Há quase 30 anos, o Instituto Terra desenvolve o trabalho de restauração florestal na bacia do Rio Doce. Desde 1998, mais de 3,6 milhões de árvores nativas foram plantadas em 2.346,96 hectares.
Além disso, por meio do programa Terra Doce — iniciativa voltada ao desenvolvimento rural sustentável —, a instituição, em parceria com produtores rurais da região, já contribuiu para que mais de 2.600 nascentes entrassem em processo de recuperação, fortalecendo a disponibilidade de água, a biodiversidade e a capacidade desses ecossistemas de enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
O programa também implantou 1.076 benfeitorias de água e solo, como barraginhas e caixas secas, e impactou mais de 1.800 hectares de áreas de recarga hídrica. São ações que ajudam tanto a conservar os recursos naturais quanto a aumentar a disponibilidade de água para as comunidades, especialmente durante os períodos mais secos.
Perder água hoje significa enfrentar mais problemas amanhã
A água é um recurso essencial para a vida. Ela sustenta a biodiversidade, abastece cidades, viabiliza a produção de alimentos, movimenta a indústria e permite a geração de energia. Embora cubra cerca de 71% da superfície terrestre, menos de 1% está disponível como água doce de fácil acesso para consumo humano.
Por isso, a redução da área de rios e lagos é um sinal de alerta que exige ações em diferentes frentes. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa, combater o desmatamento, fortalecer políticas públicas, promover o uso sustentável do solo e investir em soluções baseadas na natureza são medidas fundamentais para enfrentar esse desafio.
Nesse contexto, a restauração ambiental ocupa uma função estratégica. Recuperar nascentes, restaurar matas ciliares e reconstruir ecossistemas degradados fortalece a segurança hídrica, aumenta a resiliência das paisagens e ajuda a garantir que rios e lagos continuem desempenhando seu papel essencial para a biodiversidade e para a sociedade.
A água do futuro começa hoje
A restauração ambiental transforma paisagens degradadas, fortalece a segurança hídrica e ajuda a garantir um futuro mais sustentável para pessoas e natureza.