Entrevista com Thaís Cesário, Coordenadora de Educação Ambiental do Instituto Terra
Instituto Terra – Thaís, o que significa, para você, trabalhar com educação ambiental com crianças?
Thaís Cesário – A educação ambiental é muito mais do que um conteúdo escolar ou uma atividade pontual. Ela é, acima de tudo, um instrumento de transformação. Quando trabalhamos com crianças de 10 a 12 anos, como fazemos no programa Terrinhas, estamos cultivando algo que vai muito além do conhecimento: estamos despertando nelas uma consciência crítica essencial — uma semente de mudança para toda a comunidade.
Instituto Terra – E como o programa Terrinhas está inserido no trabalho do Instituto Terra?
Thaís – O Terrinhas é um programa de educação ambiental que integra o programa Terra Doce. Atuamos em parceria com escolas públicas e privadas da Bacia do Rio Doce, especialmente nos municípios de Aimorés, Resplendor, Itueta, Santa Rita do Itueto e Baixo Guandu. Nosso foco é a água, as nascentes e o território, mas os desdobramentos vão muito além disso. Cada módulo de aprendizagem vira ponte entre a escola, a comunidade e o meio ambiente.
Instituto Terra – O que torna essa vivência tão especial?
Thaís – Essas crianças aprendem com a mão na terra, com o olhar no rio e com a escuta do outro. E, depois de vivenciar cada conteúdo nos nossos espaços, elas voltam para suas escolas para compartilhar o que aprenderam. É assim que o conhecimento se expande — por meio da fala, do afeto e da ação.
Instituto Terra – Em 2024, vocês decidiram registrar isso de uma forma diferente, não é?
Thaís – Sim! Em 2024, decidimos registrar parte dessa jornada com o lançamento do TerrinhasCast, um podcast protagonizado pelas próprias crianças. Foram cinco episódios gravados com alunos dos cinco municípios parceiros. Em cada um, os Terrinhas discutem temas ambientais com naturalidade, criatividade e entusiasmo — como se fossem adultos, como se fossem líderes. Porque, no fundo, eles já são.
Instituto Terra – E os resultados foram além da sala de aula?
Thaís – O impacto é visível. Uma escola criou uma campanha de reaproveitamento de óleo de cozinha, que virou sabão ecológico distribuído para as famílias. Uma aluna transformou o Terrinhas em tema de livro, no projeto nacional “Super Autor”. Outra criança levou o conteúdo aprendido sobre barraginhas para casa — e a família passou a proteger uma nascente em sua propriedade. Cada ação é uma história que reverbera.
Instituto Terra – Alguma história te marcou mais?
Thaís – E algumas histórias nos marcam profundamente. Cauê, por exemplo, é um estudante de Santa Rita do Itueto com síndrome de Duchenne. Vindo de uma realidade delicada, ele encontrou no programa um espaço de pertencimento e descoberta. Foi ao viveiro, conheceu cada etapa da restauração e dizia com orgulho: “Tia, sou um Terrinha!” A experiência foi tão marcante que talvez tenha sido seu único contato com a natureza em profundidade. Isso nos emociona — e nos responsabiliza.
Instituto Terra – O que você acredita que o Terrinhas representa hoje?
Thaís – O que o Terrinhas faz é mais do que ensinar: é permitir que cada criança enxergue seu papel no mundo. E quando damos espaço para que essas vozes ecoem, como fizemos no podcast, o alcance se torna ainda maior. O que acontece aqui pode inspirar escolas no Rio de Janeiro, famílias em São Paulo, ouvintes na França ou nos Estados Unidos. Porque cuidar do planeta é um idioma universal.
Instituto Terra – Você fala com muito carinho sobre esse trabalho…
Thaís – Eu falo do Terrinhas com orgulho, com afeto e com esperança. Porque eu também fui uma Terrinha. Participei do programa entre 2006 e 2008. E foi lá, ainda criança, que compreendi o que era ser parte da solução. Hoje, como coordenadora, sigo semeando o que um dia plantaram em mim.
Instituto Terra – Para fechar: o que você espera para o futuro do Terrinhas?
Thaís – Que essas sementes sigam germinando — nas escolas, nas casas, nas florestas e nos corações.