Com metas ainda insuficientes e um planeta em aquecimento acelerado, é preciso sair do papel e tornar as políticas reais
As Contribuições Nacionalmente Determinadas — cuja sigla é NDC do inglês Nationally Determined Contribution — são a base do Acordo de Paris, um instrumento pelo qual cada país, de forma soberana, estabelece metas de redução de emissões de gases do efeito estufa dentro de prazos definidos e revisões periódicas.
Firmado em 2015, o Acordo se baseia na atualização contínua dessas metas, que deveriam refletir, ao longo dos anos, o aumento da ambição climática global. Entramos agora no ciclo 2025-2035, justamente o período em que o mundo deveria acelerar a queda das emissões. No entanto, a realidade mostra que estamos longe disso.
O alerta veio em 2024. O primeiro da história a registrar uma marca superior a 1,5°C na temperatura média — durante 11 meses do ano — em relação aos níveis pré-industriais. É um marco incômodo que reforça o que a ciência já diz há décadas: as metas atuais são insuficientes, e as próximas NDCs precisam ser muito mais rigorosas para frear o colapso climático. Ainda assim, até setembro de 2025, apenas 64 países haviam atualizado suas contribuições. Esse número foi atualizado para 113 nações durante os primeiros dias da COP, o que mostra sinais claros de lentidão política e de desequilíbrio entre discurso e ação.
Apesar deste cenário, alguns avanços recentes merecem certo destaque: a União Europeia submeteu novas metas prevendo cortes entre 66,3% e 72,5% das emissões até 2035. O Brasil, por sua vez, atualizou sua NDC em novembro de 2024 e assumiu o compromisso de reduzir entre 59% e 67% no mesmo período.
Esses números representam avanços importantes, mas ainda distantes do necessário. O consenso entre negociadores e especialistas durante a COP é de que, mesmo com metas mais ambiciosas, o planeta segue numa trajetória que pode romper definitivamente o limite dos 1,5°C. E, infelizmente, o debate já começa a se deslocar para tentar manter o aquecimento abaixo dos 2°C.
O contraste mais evidente surge quando olhamos para grandes emissores. Os Estados Unidos, por exemplo, apresentaram sua última NDC ainda sob o governo Biden, com meta de redução de 61% a 66% até 2035. Contudo, a ausência total da delegação norte-americana na COP30 em Belém, após a eleição do presidente Trump, cria uma sombra de instabilidade e incerteza. Fica cada vez mais evidente que o compromisso climático ainda é profundamente vulnerável a ciclos políticos internos.
Até o momento, o relatório da ONU projeta queda de apenas 12% das emissões globais até 2035 — número que escancara o abismo entre o que se promete e o que se entrega. Por isso, esta conferência vem sendo chamada de a COP da implementação. Lideranças como o presidente da COP e Embaixador André Corrêa do Lago e a diretora executiva da COP Ana Toni reforçam que o desafio deste ano é transformar metas em programas e estes em realidade. NDCs são importantes, mas, sem execução, continuam sendo apenas documentos diplomáticos bem-escritos.
No caso brasileiro — e de muitos países em desenvolvimento — o foco das medidas precisa ser distinto de países desenvolvidos, que, na maioria das vezes, são os maiores emissores industriais. Aqui, a maior parte dos gases de efeito estufa não vem da queima de combustíveis fósseis, mas sim do desmatamento, das mudanças no uso da terra e da agropecuária. Isso torna a bioeconomia, a restauração florestal e a transição produtiva no campo o núcleo da solução. Não é possível cumprir — e até ultrapassar — as NDCs brasileiras sem enfrentar de frente a lógica de ocupação da terra.
Nesse sentido, surgem iniciativas promissoras. Uma delas é a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) — uma articulação internacional que pretende captar até US$ 25 bilhões de governos e US$ 100 bilhões da iniciativa privada, estruturando um fundo de investimento de baixo risco e com retorno compatível com o mercado para a conservação de florestas tropicais. Trata-se de um modelo inovador, pois financia a proteção ambiental sem ser fundo perdido, ao mesmo tempo em que gera retorno e estabilidade econômica para países em desenvolvimento.
Outra frente estratégica é o avanço de programas que articulam produção rural e descarbonização. O ministro Paulo Teixeira, por exemplo, convidou o presidente do Instituto Terra, Juliano Ribeiro Salgado, para atuar como embaixador do programa Florestas Produtivas, iniciativa que dialoga diretamente com experiências como o Terra Doce, inspirado em práticas de transição agroecológica e restauração econômica no vale do Rio Doce. A lógica é simples e poderosa: usar o campo como solução, não como problema.
Segundo estimativas da Embrapa, o Brasil possui cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas. Recuperar essas áreas com sistemas agroflorestais, restauração produtiva e manejo regenerativo significa, simultaneamente:
- Sequestrar carbono;
- Reduzir pressão por desmatamento;
- Gerar renda e estabilidade para comunidades rurais; e
- Construir uma economia verde sólida e exportável.
Não é coincidência que iniciativas brasileiras estejam ganhando espaço. Afinal, são modelos eficazes, viáveis e adaptáveis às realidades locais.
À medida que a COP avança, cresce a expectativa sobre o acordo final. E a história mostra que o desfecho nunca é simples: a plenária final frequentemente se estende por horas ou dias além do previsto, na tentativa de costurar consensos entre 194 países.
Nesta edição, a presidência brasileira buscou reduzir pontos de conflito, como o debate sobre combustíveis fósseis e financiamento climático, articulando a pauta para garantir fluidez e aumentar as chances de um acordo robusto. A estratégia é clara: esta precisa ser a COP que cria condições práticas para que as NDCs comecem, enfim, a sair do papel — ainda que as metas precisem continuar evoluindo.
Se existe algum motivo para otimismo, ele vem do papel diplomático do Brasil. Com uma das tradições multilaterais mais sólidas do mundo, o país assume a presidência da COP convencido de que é possível produzir consensos mesmo nos cenários mais adversos. Negociadores brasileiros têm histórico de encontrar saídas onde outros veem impasse — e essa habilidade será crucial para destravar a agenda climática, fortalecer compromissos e alinhar ambição com realidade.
O mundo está no limite, e o tempo é curto. A pergunta não é mais se vamos romper o 1,5°C, mas como vamos impedir que o planeta ultrapasse os 2°C. As NDCs são apenas o ponto de partida. A grande escolha, agora, é transformar intenção em ação — e isso dependerá de coragem política, financiamento estruturado e cooperação internacional.
Se esta COP conseguir avançar nessa direção, talvez ainda haja espaço para reconstruir não apenas o clima, mas a confiança do mundo em sua própria capacidade de mudar o rumo da história.

Por Mário Constantino, head de comunicação do Instituto Terra