Do resgate das memórias dos rios Doce e Manhuaçu à mobilização socioambiental, participantes do Terra Jovens mostram que protagonismo se constrói com formação
Muito se fala sobre como as novas gerações são desinteressadas, dispersas ou distantes dos problemas reais. Na bacia do Rio Doce, porém, jovens têm mostrado exatamente o contrário: pesquisam, produzem, mobilizam e propõem novos olhares sobre o território onde vivem.
No Terra Jovens, programa gratuito de educação ambiental do Instituto Terra, pessoas entre 16 e 29 anos tornam-se agentes de transformação por meio da produção de vídeos e manifestos que ampliam o debate sobre questões socioambientais urgentes.
Um dos eixos da formação convida os participantes a contar suas histórias por meio do audiovisual, utilizando apenas o celular como ferramenta. A proposta é simples e potente: mostrar que eles já têm nas mãos os instrumentos para refletir sobre problemas locais e globais e compartilhar suas perspectivas com a comunidade.
Vozes que ecoam a memória dos rios
Em Aimorés (MG), Thiago Amorim, participante da primeira edição do Terra Jovens, decidiu voltar seu olhar para os rios Doce e Manhuaçu. No vídeo “Memórias dos Rios Doce e Manhuaçu”, ele investigou como esses cursos d’água já foram espaços de lazer, socialização, sustento e identidade cultural da região.
Sem memórias pessoais dos rios em seu auge, Thiago buscou relatos de moradores mais antigos e descobriu o quanto a relação da comunidade com as águas foi se transformando ao longo dos anos. Trechos antes frequentados para banho e encontro já não têm o mesmo fluxo e, em algumas áreas, o cenário mudou drasticamente. “O que mais me chamou a atenção foi perceber que, quando a natureza vai embora, também se vão a história e a identidade de um povo”, afirma.
O vídeo, inicialmente pensado como um projeto pessoal, ganhou repercussão e permitiu que diferentes vozes fossem ouvidas. Em 2025, a produção foi selecionada para o Telas Amigáveis – Mostra de Cinema Infantojuvenil pelo Clima, realizada em Diamantina (MG), ampliando ainda mais o alcance da mensagem. “Fiquei extremamente grato, porque muitas dessas memórias poderiam se perder”, completa.
Além do documentário, Thiago produziu um manifesto sobre o descarte incorreto de lixo no Rio Doce, motivado pela convivência diária com o rio. “É um lugar de cura, de vida. Me incomoda ver como as pessoas o tratam. Então fiz o vídeo como forma de manifestação.”
Para ele, os desafios enfrentados pelos rios da região estão conectados a escolhas coletivas e modelos de desenvolvimento que precisam ser repensados. “Eu vejo a juventude com uma grande responsabilidade nas mãos. Temos força para ser o motor da mudança, mas isso exige educação e formação crítica.”
Formação que gera desdobramentos
A experiência no Terra Jovens ampliou a forma como Thiago enxerga o território e seu próprio papel dentro dele. E os desdobramentos continuam: durante a Semana do Meio Ambiente do Instituto Terra, ele irá conduzir uma oficina com crianças.
A expectativa é que elas se reconheçam como parte do meio ambiente e como agentes capazes de cuidar e transformar o lugar onde vivem. “As relações são sempre uma troca. Espero ensiná-las, mas também aprender muito com elas”, diz ele, lembrando que também aprendeu muito ao ouvir os relatos para seu documentário.
Juventude em ação
Outros participantes das primeiras edições do Terra Jovens também utilizaram o audiovisual para abordar temas como consumismo, a discriminação que o povo Pury enfrenta na região, equoterapia, violência contra a mulher, o retorno de adultos à sala de aula, entre outros que podem ser conferidos no Instagram do Terra Jovens. Assuntos diversos, mas atravessados por um mesmo entendimento: o território não é apenas cenário, é espaço de pertencimento e ação.
Histórias como essas mostram que o Terra Jovens é mais do que um programa de formação. É um espaço de escuta, construção coletiva e fortalecimento de lideranças locais. Jovens que transformam inquietação em ação e memória em mobilização.
“Eu acredito que o Terra Jovens possui um poder transformador, necessário para nossa comunidade. É a partir disso que podemos superar ideias enraizadas que não permitem o viver do humano e da natureza”, finaliza Thiago.
Terra Jovens 3.0
É justamente essa força coletiva que move o programa a seguir adiante.
Se a juventude muitas vezes é subestimada, iniciativas como essa mostram o contrário. Quando encontram espaço, formação e escuta, jovens respondem com engajamento e criatividade.
As inscrições para a terceira edição do Terra Jovens já estão abertas. Se você quer contar sua história e agir no território onde vive, essa pode ser a sua oportunidade.