Por Juliano Salgado, presidente do Instituto Terra
Publicado originalmente no Relatório Anual 2024
2024 foi um ano que colocou à prova nossa capacidade de adaptação. Diante de eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo, o Instituto Terra reafirmou seu compromisso com a restauração ecológica, a regeneração do campo e a transformação das práticas agrícolas. Nesta carta aberta, Juliano Salgado compartilha uma análise contundente do cenário atual e do papel estratégico que o Instituto tem assumido em resposta à crise.
Carta do Presidente
Se ainda havia espaço para dúvidas, os eventos deste ano escancararam a urgência de transformar nossos modelos de produção e convivência com a natureza. Pela primeira vez na história o mundo registrou temperaturas recordes, 1,63°C acima da média pré-industrial. No Brasil, o cenário foi dramático: de um lado, enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, de outro a pior seca da história na Amazônia, e mais de 5 milhões de hectares perdidos para o fogo em apenas sete meses. No Vale do Rio Doce, onde atuamos, a estiagem extrema comprometeu as atividades econômicas e afetou duramente as comunidades rurais.
Se a violência da piora do clima surpreendeu, a tendência já vinha se desenhando há vários anos. Por isso, há tempos no Instituto Terra temos nos preparado para assumir um crescimento que nos permita exercer o protagonismo necessário diante desse novo cenário — propondo caminhos para a resiliência e para a imprescindível transformação das práticas e dos valores da nossa sociedade agrícola.
Com o apoio da Zurich Insurance Group (Zurich), adquirimos duas novas propriedades limítrofes à nossa RPPN histórica — as fazendas Maria Bonita, Vai e Vem e com uma generosa doação particular, o Sítio Constância —, ampliamos nossa área de preservação de 710 para 2.340 hectares. Essas fazendas se somam à Cantinho do Céu, adquirida em 2023, também com o apoio da Zurich. Essa expansão nos dá a oportunidade de continuar aprimorando nossas técnicas de restauração florestal de alta biodiversidade e fortalecer o papel da nossa floresta como referência viva para o mundo.
Lançamos também, em parceria com a Zurich, a construção de um novo viveiro de mudas nativas. Iniciada em novembro, a obra dará origem a uma estrutura com capacidade para gestar até 2 milhões de mudas de árvores nativas por ano, permitindo-nos atender à crescente demanda por restauração ambiental em larga escala — especialmente no contexto do programa Terra Doce, que ganhou nova dimensão em 2024.
Hoje, o programa Terra Doce representa uma proposta sistêmica para reverter séculos de degradação ambiental no vale do Rio Doce e transformar a base socioeconômica e ambiental da região. Essa transformação acontece por meio da conversão de pastagens e monoculturas em modelos de agricultura sustentável e de alta produtividade; da abertura de mercados para produtos de maior valor agregado; e do fortalecimento da educação ambiental e da produção cultural local. Assim estamos não somente adequando as práticas quotidianas da sociedade agrícola do Rio Doce para que ela possa sobreviver às mudanças climáticas, como estamos gerando riquezas que vão irrigar a sociedade toda, começando com as populações mais carentes. Entendemos que essa geração de riqueza dada pela adequação agrícola ecológica será o grande motor da transformação do rio Doce e fará do Terra Doce um exemplo a ser seguido para a agricultura Brasileira em regiões de escassez hídrica.
Em 2024, reforçamos a rede de parceiros que tornarão esse programa possível em maior escala. Já contamos com o apoio da Cooperação Alemã por meio do KfW e com o WWF Brasil na fase atual do Terra Doce. A Fundação Dom Cabral está nos apoiando na modelagem de estratégias de mercado que darão viabilidade de longo prazo à iniciativa. E os parceiros do CIAAT e da Plural Cooperativa trazem uma profunda experiência no campo do desenvolvimento rural sustentável, contribuindo para que o impacto do Terra Doce se amplie e chegue a mais famílias produtoras. Além disso, o apoio do G20 na articulação de espaços para apresentação da nossa metodologia em âmbito internacional e a nossa já longa parceria com a Zurich – que hoje também representa avanços na infraestrutura e produtividade do Instituto Terra – completam essa aliança estratégica em prol da nossa região.
Essa expansão de impacto também passa pela educação. Neste ano, retomamos com força total o programa Terrinhas, voltado à educação ambiental infantil, que acolheu 550 crianças, além de professores e diretores escolares. E lançamos o novo programa Terra Jovens, com oficinas temáticas voltadas a jovens de 16 a 29 anos, que promovem reflexões sobre os grandes desafios da atualidade e estimulam ações em suas comunidades, usando o audiovisual como ferramenta de expressão dos temas que mais lhes tocam.
Encerramos este ano com a convicção de que o Instituto Terra está mais forte, mais preparado e mais necessário do que nunca. Canalizamos as grandes demandas do nosso tempo e crescemos com responsabilidade, coerência e visão de longo prazo. Seguiremos juntos, restaurando a terra e cultivando futuros.