Patrocinado pela Embaixada da Eslovênia, “Do cacau ao chocolate” é o primeiro de três encontros dedicados às mulheres
O cacau ainda não era chocolate. Nas mãos das participantes, ele era fruto, semente, possibilidade. Durante três dias, em Resplendor (MG), mulheres de diferentes idades e trajetórias se reuniram para aprender, trocar experiências e olhar para a terra de outra forma.
Promovido pelo programa Terra Doce, iniciativa de desenvolvimento rural sustentável do Instituto Terra, em parceria com a Embaixada da Eslovênia, o curso “Do cacau ao chocolate” marcou o início de uma série de três formações voltadas ao fortalecimento de mulheres da bacia do Rio Doce.
Por muito tempo, o trabalho no campo foi associado quase exclusivamente aos homens. A imagem de quem planta, maneja ferramentas ou conduz a produção agropecuária ainda costuma carregar esse imaginário. Enquanto isso, inúmeras mulheres permaneceram invisibilizadas, muitas vezes restritas ao espaço doméstico ou vistas apenas como apoio familiar.
Essa realidade, no entanto, vem mudando. Segundo dados do coletivo Forbes Mulher Agro, cerca de um milhão de mulheres dirigem propriedades rurais no Brasil, representando 38% da população do agronegócio. Mais do que números, esse movimento revela trajetórias de protagonismo, conhecimento e transformação que sempre existiram — e que hoje ganham mais espaço e visibilidade.
É nesse contexto que o Instituto Terra busca criar oportunidades concretas para ampliar autonomia, renda e protagonismo feminino no campo.
Muito antes da barra de chocolate

Quem consome chocolate raramente pensa no caminho percorrido até ele chegar às prateleiras, mas foi justamente esse percurso que guiou a formação.
Muito além do produto final, o curso mergulhou no universo do cacau desde a origem: plantio, poda, adubação, manejo adequado, colheita, fermentação, secagem e classificação dos grãos.



As participantes aprenderam a identificar diferentes qualidades do fruto, compreender o que diferencia um cacau commodity de um especial e explorar possibilidades de aproveitamento integral, incluindo polpa, casca e sementes.


Na prática, foi um convite para enxergar valor onde, muitas vezes, se vê apenas matéria-prima.
Produção, mercado e novas possibilidades

O aprendizado não terminou no campo. A formação também trouxe discussões sobre transformação do produto, comportamento do consumidor e estratégias de comercialização.
Em um país onde 59% da população afirma gostar de chocolate e 41% o consomem ao menos uma vez por semana, compreender o mercado é parte fundamental da cadeia produtiva. Por isso, o curso abordou a produção de diferentes tipos de chocolate, além do aproveitamento de subprodutos como manteiga de cacau, doces e geleias.


Mais do que ensinar técnicas, a proposta foi ampliar repertórios: como agregar valor à produção, comunicar melhor sobre um produto e encontrar caminhos para levá-lo ao mercado.
“O curso mostrou a importância do SAF que estamos plantando e o que podemos desenvolver com cada lote. Foi um aprendizado completo, do passo a passo de como colher o cacau até chegar à barra de chocolate, que fez com que saíssemos com muitas ideias”, afirma Jaquelane Rodrigues, produtora rural do assentamento Dorcelina Folador em Resplendor.
Transformação que vai além do cacau
Para além da formação técnica, a iniciativa representa um movimento maior: quando mulheres ampliam seus conhecimentos, fortalecem sua autonomia e ocupam espaços historicamente negados, toda a comunidade se transforma junto.
“A importância de ter projetos como esse, através do Instituto Terra, é que eles abrem um caminho imenso para nós, produtoras rurais, porque ampliamos nossa visão para novas possibilidades. Antes mesmo de o curso acabar, já pensamos em criar uma cooperativa focada só nas mulheres para o crescimento da nossa comunidade. Essa troca de informação é essencial para nós”, finaliza Jaquelane.
Na bacia do Rio Doce, esse é um compromisso construído diariamente pelo Instituto Terra por meio do Terra Doce: promover desenvolvimento rural sustentável que gere renda, oportunidades e permanência digna no território.
Porque, no fim, essa vivência não fala apenas sobre chocolate. Fala sobre futuro.
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