Vivências práticas, troca de saberes e aprendizado em campo marcam os primeiros meses da formação em restauração ecossistêmica
Manejar abelhas nativas da Mata Atlântica, produzir mudas, colocar as mãos na terra para plantar, fazer a água brotar.
Desde fevereiro de 2026, a nova turma do Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE), do Instituto Terra, vem aprendendo diretamente com a natureza, em uma formação que vai muito além da sala de aula tradicional. Mais do que ouvir, o curso evidencia a importância de observar, testar, cuidar e transformar.
Uma formação para a vida
Criado em 2005, o NERE é um programa de educação ambiental voltado à formação pós-técnica de jovens de 18 a 22 anos da bacia do Rio Doce. Com duração de 11 meses e carga horária de 2 mil horas, o curso combina teoria e prática — cerca de 80% das atividades são realizadas em campo.
Ao longo dessa jornada, os estudantes desenvolvem uma formação ampla, que integra fundamentos científicos, habilidades técnicas e competências humanas. “O NERE é uma vivência com impacto concreto. Durante o curso, os jovens dominam processos avançados de restauração ecológica e soluções sustentáveis, conquistando autonomia e experiência”, destaca Wallace Carvalhido, coordenador de Educação do Instituto Terra.
Nesse contexto, a prática assume papel central ao permitir que os jovens compreendam os processos em sua totalidade e se preparem para propor soluções aos desafios contemporâneos.
A natureza como sala de aula
O contato direto com a floresta tem um impacto decisivo na formação. Se o conteúdo em sala é fundamental para garantir uma base teórica consistente, é no campo que o conhecimento se consolida — desenvolvendo autonomia, criatividade e resiliência nos estudantes.
No Instituto Terra, a observação dos processos ecológicos e a aprendizagem a partir de situações reais orientam o percurso formativo. A floresta, nesse sentido, é um sistema vivo que ensina diariamente, enquanto o território se configura como um laboratório a céu aberto.
Aqui, cada área em restauração ou em implantação de sistemas sustentáveis de produção se torna, simultaneamente, conteúdo, método e resultado do aprendizado.
As atividades desenvolvidas
A turma de 2026 iniciou sua trajetória no Instituto Terra no dia 23 de fevereiro, com a Semana de Acolhimento. Desde então, os Agentes em Restauração Ecossistêmica (AREs) já participaram de diversas atividades que articulam formação profissional e experiência de vida.
Entre os destaques está o curso de meliponicultura, que ampliou o conhecimento sobre espécies de abelhas nativas e o manejo do Meliponário Escola do Instituto Terra. Atualmente, os jovens já estão capacitados e, inclusive, tornaram-se responsáveis por zelar por este espaço ao longo do programa.
Os AREs também passaram por setores como o viveiro de mudas nativas e a área de extensão ambiental e rural. Em contato direto com as equipes da organização, vivenciam uma intensa troca de saberes, aprofundando sua compreensão sobre os diferentes processos da restauração.
Neste momento, a turma participa do curso de recuperação de nascentes e adequação de propriedades rurais. A formação inclui visitas técnicas que abordam o cuidado com a água e a realidade produtiva de agricultores da bacia do Rio Doce, parceiros do programa Terra Doce — iniciativa de desenvolvimento rural sustentável do Instituto Terra.
Além disso, os estudantes já participaram de formações complementares, como informática, português instrumental e oficina de fotografia. Também iniciaram atividades voltadas à comunicação, como elaboração de palestras, seminários e produção de resumos a partir de leituras orientadas.
Muito além de técnica: formação de olhar
Esse é um dos diferenciais do Instituto Terra: oferecer ferramentas, mas, sobretudo, ensinar a utilizá-las com propósito. Ao longo do processo, os jovens desenvolvem senso crítico, responsabilidade socioambiental e uma visão sistêmica sobre os desafios do território.
Mais do que formar técnicos, o objetivo é formar protagonistas de suas trajetórias e agentes de transformação em suas comunidades. E os resultados são concretos: hoje, cerca de 70% dos egressos do NERE atuam em projetos de reflorestamento, consultorias ambientais e organizações do terceiro setor, fortalecendo a rede de restauração da Mata Atlântica.
São profissionais que levam esse conhecimento de volta às pequenas e médias propriedades da bacia do Rio Doce, contribuindo para a melhoria das condições de vida de suas famílias e comunidades — muitas delas diretamente dependentes da terra.
Para os AREs que estão apenas começando essa jornada, a floresta ainda representa um vasto campo de possibilidades. Se os primeiros meses já revelam o potencial dessa formação, o que vem pela frente é ainda mais promissor — para os jovens, para o território e para o futuro da restauração.
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