Somos fruto do sonho de Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado, que, diante da degradação ambiental da antiga fazenda de gado da família, decidiram restaurar a floresta que havia aqui e, em 1998, fundaram o Instituto Terra em Aimorés–MG. Recebemos o título de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), concedido de maneira inédita a uma área já degradada, mediante o compromisso de ser restaurada.
Estamos localizados na Bacia Hidrográfica do Rio Doce, uma região quase inteiramente coberta pela Mata Atlântica. Embora reduzido a cerca de 12% de sua extensão original, este bioma é considerado um hotspot global de biodiversidade — o que torna ainda mais estratégico o trabalho de restauração ecossistêmica que desempenhamos há 26 anos.
As condições ambientais para essa restauração são, no entanto, extremamente desafiadoras: temperaturas elevadas, relevo íngreme, solos empobrecidos e compactados, corpos d’água assoreados e longos períodos de seca, interrompidos apenas brevemente pelas tempestades do verão. Diante de tantas adversidades, houve quem acreditasse que seria impossível replantar uma floresta neste lugar.
Mas seguimos em frente — e não o fizemos sozinhos. Pesquisadores, técnicos, colaboradores, conselheiros, parceiros e apoiadores somaram forças conosco ao longo dos anos para cultivar esta jovem floresta, onde hoje crescem mais de 3 milhões de árvores. Ao longo desse caminho, três grandes aliados têm sido especialmente marcantes em nossa história.
Primeiro são as crianças e os jovens. Desde 2005, com a criação do nosso Centro de Educação em Restauração Ambiental (CERA), desenvolvemos programas de educação ambiental, formação profissional e sensibilização comunitária. O programa Terrinhas, por exemplo, continua impactando centenas de estudantes e professores todos os anos, levando o cuidado com a natureza para dentro das salas de aula e dos lares. Já o Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE) capacita anualmente jovens para atuarem como Agentes de Restauração de Ecossistemas. E mais recentemente, o programa Terra Jovens tem estimulado a participação da juventude na vida comunitária do território. Mais do que o futuro, acreditamos que a juventude transforma o presente. Ela carrega a novidade e influencia o cotidiano das famílias, escolas e comunidades. Sua escuta, coragem e imaginação fazem parte da nossa força.
Segundo são os animais. Não demorou para que começássemos a testemunhar o retorno da fauna local: papagaios-chauá, jabutis, bugios, tamanduás de colete, lobos-guará, jaguatiricas, onças-pardas e tantos outros. Mais de 200 espécies já foram identificadas por aqui. Além de ser um excelente indicador ambiental, o retorno dos animais é um sinal de que a floresta está viva — e pronta para se regenerar naturalmente.
Terceiro são os produtores rurais. Desde 2010, com o lançamento do Programa Olhos D’Água, temos atuado em parceria com as famílias do campo para recuperar nascentes e garantir segurança hídrica em suas propriedades. Com o tempo, o programa foi se ampliando para responder a outras necessidades do meio rural, como o tratamento de efluentes, a conservação de água e solo e o fortalecimento da assistência técnica. Dessa forma, o Olhos D’Água se consolidou como uma estratégia premiada de proteção hídrica para a bacia do Rio Doce, com mais de 2 mil nascentes recuperadas em diálogo direto com as comunidades locais.
O sucesso dessa experiência inspirou a criação, em 2023, do Programa Terra Doce — uma evolução do Olhos D’Água. Além da proteção das nascentes, ele passou a incluir a implementação de sistemas produtivos sustentáveis como agroflorestas, sistemas silvipastoris, pomares agroecológicos e modelos adaptados à realidade de cada agricultor. O Terra Doce encarna a missão do Instituto Terra de “estimular o desenvolvimento sustentável por meio da recuperação e da conservação das florestas, da educação ambiental e do uso correto dos recursos naturais”. Faz isso ressignificando a relação entre pessoas, terra, água e fauna, e fomentando uma identidade cultural baseada na regeneração e na sustentabilidade.
À medida que nossas ações se expandem pela bacia do Rio Doce, seguimos também fortalecendo nossa base em Aimorés–MG. Em 2023, adquirimos a Fazenda Cantinho do Céu, área contígua à nossa RPPN e tão degradada quanto ela costumava ser. Em 2024, chegaram as fazendas Maria Bonita, Chucha e Constância. Hoje, o Instituto Terra conta com uma área total de 2.346 hectares — onde seguiremos plantando por muitos anos.
Cada muda nativa gestada em nosso viveiro-escola carrega mais do que um potencial de reflorestamento. Ela apoia a formação de técnicos ambientais. Desperta a curiosidade das crianças. Protege o solo e recupera a água para a produção de alimentos nas propriedades rurais. Abriga a fauna. E, um dia, oferecerá novas sementes para que tudo recomece.
Nosso objetivo é aplicar nestas terras todo o conhecimento que desenvolvemos e aprimoramos ao longo de 26 anos, fortalecendo o exemplo que esta floresta representa. Aqui, estamos consolidando um pólo de irradiação de biodiversidade para o vale do Rio Doce e um laboratório vivo onde se cultiva, todos os dias, uma cultura de restauração.
As mudanças climáticas já são uma realidade, e enfrentá-las será um dos maiores desafios do nosso tempo. Sabemos que haverá incertezas, retrocessos e dificuldades. Mas, nessas horas, convidamos o leitor a lembrar-se do que estamos fazendo aqui — e da certeza de que, mesmo sob as condições mais adversas, é possível restaurar o meio ambiente e as comunidades.
Basta coragem para colocar o sonho em prática. E o apoio de muitos aliados.