Entre folhas prensadas e histórias silenciosas, o espaço guarda a memória viva das florestas da bacia do Rio Doce
Antes de chegar ao viveiro e, um dia, voltar à floresta, muitas plantas passam por um caminho pouco conhecido — e essencial para a restauração. Esse caminho começa no campo, em expedições que percorrem até 200 quilômetros ao redor do Instituto Terra, em busca de sementes e, às vezes, de algo ainda mais valioso: espécies que talvez ninguém tenha identificado antes.
Quando essas amostras chegam ao herbário, inicia-se outro tipo de jornada. Ali, o que parece ser apenas uma planta colhida ganha um novo significado.
À primeira vista, pode soar estranho imaginar folhas secas guardadas como se fossem livros. Mas é exatamente isso que o herbário é: uma biblioteca botânica. Criado em 2023 no Instituto Terra, o espaço reúne, organiza e preserva registros das espécies encontradas na bacia do Rio Doce — um acervo que pode ser consultado por pesquisadores do mundo inteiro.
Entre ciência e cuidado: o trabalho invisível


Cada amostra passa por um processo cuidadoso. Primeiro, é limpa, prensada e colocada para secar por dias — uma etapa necessária para evitar fungos e garantir sua preservação. Depois, vêm a identificação, o registro fotográfico e o preenchimento de informações detalhadas: nome, local exato de coleta, características da planta.

Mas o trabalho vai além da técnica. Há um olhar atento para cada detalhe. Folhas, flores, frutos e galhos são organizados manualmente — costurados um a um — porque, muitas vezes, é a presença de uma flor ou de um fruto que permite identificar a espécie com precisão. Sem isso, a identificação pode ser impossível.
Quando a planta já é conhecida, suas informações passam a integrar o SpeciesLink, uma base de dados global acessível a pesquisadores e instituições de diferentes países. É ali que o conhecimento ganha escala: o que foi encontrado na bacia do Rio Doce passa a dialogar com o mundo.
“Na plataforma, registramos desde o nome científico até detalhes como cor, cheiro e estágio da planta. São informações que permitem que qualquer pessoa, em qualquer lugar, compreenda aquela espécie em profundidade”, explica Rosani Butske, analista ambiental do Instituto Terra.
Já as espécies desconhecidas seguem um percurso diferente. Antes de qualquer registro, elas são analisadas por especialistas até que sua identidade seja confirmada. Só então entram para esse grande banco de dados da biodiversidade. Muitas delas voltam ao campo depois disso — agora não mais como desconhecidas, mas como parte ativa dos esforços de restauração.
Guardar histórias para restaurar o futuro
Enquanto isso, no herbário, todas as amostras seguem protegidas em um ambiente cuidadosamente controlado: temperatura estável, baixa umidade, proteção contra organismos indesejados. Tudo para garantir que essas coleções resistam ao tempo, porque, no fundo, o herbário não guarda apenas plantas. Ele guarda histórias.

Histórias de onde cada espécie veio, de como ela vive e por que ela é importante para o equilíbrio da natureza. Histórias que ajudam a entender as transformações do ambiente, a proteger a biodiversidade e a planejar o futuro das florestas.
Como reforça Rosani, preservar esse acervo é também preservar o conhecimento: “Precisamos cuidar do herbário para garantir que essas informações continuem existindo e possam orientar as próximas gerações.”
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