Em meio ao avanço do tráfico e à perda de habitats no Brasil, restaurar ecossistemas é uma das formas mais eficazes de proteger a fauna silvestre
No dia 3 de março, celebramos o Dia Mundial da Vida Selvagem, uma data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) que nos convida a olhar para além das paisagens e enxergar quem vive nelas com certa urgência.
Isso porque, para além de homenagens simbólicas, os números revelam um cenário que exige ação concreta. Segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais silvestres são retirados ilegalmente da natureza no Brasil a cada ano – o que equivale a quase o dobro da população de Minas Gerais, o segundo estado mais populoso do país.
Em âmbito estadual, dados da Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) apontam que, apenas em 2024, o Cetras-SP – Centro de Triagem de Animais Silvestres – recebeu 8.567 animais, sendo que 60% foram vítimas de tráfico ilegal.
Mas o tráfico não é a única ameaça. A degradação dos habitats naturais, o desmatamento e a poluição seguem entre os principais fatores de risco para a sobrevivência das espécies, tanto no Brasil quanto no mundo. Sem floresta, não há abrigo. Sem diversidade vegetal, não há alimento. Sem água limpa, não há sobrevivência.
Proteger a vida selvagem passa, necessariamente, por restaurar os ambientes onde ela vive.
Da terra degradada ao retorno das espécies
Na Mata Atlântica — um dos biomas mais biodiversos e ameaçados do planeta — a restauração florestal tem se mostrado uma estratégia fundamental de conservação.
A recomposição de áreas degradadas, com espécies nativas e diversidade suficiente para sustentar cadeias alimentares complexas, permite que processos ecológicos sejam retomados: polinização, dispersão de sementes, controle natural de populações e regeneração do solo.
Quando o habitat se reestrutura, a fauna encontra condições para retornar.
Em 1998, o programa Refloresta, iniciativa de restauração ecossistêmica do Instituto Terra, transformou áreas antes ocupadas por pastagens degradadas por meio do plantio de espécies nativas e da regeneração assistida.
Desde sua criação, a organização conseguiu:
- Produzir mais de 7,4 milhões de mudas de mais de 300 espécies nativas em seu viveiro;
- Plantar mais de 3,3 milhões de árvores em sua área de preservação;
- Transformar a Fazenda Bulcão, com 709,87 hectares, em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
E o resultado vai além das mudas plantadas. Com o renascimento da floresta, a fauna também voltou. A recuperação da vegetação nativa permitiu que mais de 235 espécies de animais retornassem à área, incluindo algumas ameaçadas de extinção, como chauás, onças-pardas, jaguatiricas, maracanãs e arapongas. Entre elas estão também predadores do topo da cadeia, fundamentais para o equilíbrio ambiental.
A presença da jaguatirica, por exemplo, é um indicador de biodiversidade poderoso, já que ela só se estabelece onde a teia alimentar está estruturada e há disponibilidade de presas. Ou seja, seu retorno sinaliza que o ecossistema voltou a funcionar de forma consistente.
Assim, a floresta deixou de ser um espaço degradado para se tornar novamente um sistema vivo.
Vida selvagem é equilíbrio
Além de ações de fiscalização ou combate ao tráfico, a proteção da vida selvagem também depende, sobretudo, de garantir a existência de ambientes saudáveis, conectados e resilientes.
Restaurar ecossistemas significa ampliar refúgios, fortalecer corredores ecológicos e aumentar as chances de sobrevivência das espécies diante das mudanças climáticas.
Neste Dia Mundial da Vida Selvagem, o convite é ampliar o olhar: proteger animais também é proteger o solo, a água e a diversidade vegetal. Porque a vida silvestre não sobrevive isoladamente. Ela depende da floresta. E a floresta depende das escolhas que fazemos hoje.
Apoie essa transformação
Doe e ajude a regenerar habitats para ampliar as chances de sobrevivência de centenas de espécies.