Coordenadora do Viveiro de Mudas fala sobre sua trajetória profissional e o que a expansão das operações representa para a restauração ecossistêmica, a educação ambiental e o desenvolvimento rural sustentável
Ainda que as obras do novo viveiro do Instituto Terra não tenham sido finalizadas, as atividades já começaram, com a realização das primeiras repicagens de mudas. Esse movimento marca o início de um novo ciclo, que deve ampliar o alcance e o impacto da restauração na bacia do Rio Doce. Para compreender a dimensão dessa expansão, conversamos com Elisângela Ferreira da Silva, Coordenadora do Viveiro de Mudas do Instituto Terra.
Para começar, você pode contar um pouco da sua trajetória como bióloga, como e quando chegou ao Instituto Terra e qual cargo ocupa atualmente?
Em 2012, ainda durante a graduação, realizei estágio no então recém-criado laboratório de sementes do Instituto Terra, onde iniciei minha trajetória profissional na área. Ao longo desse período, continuei meus estudos e participei de outros estágios que contribuíram para minha formação. Em outubro de 2013, tive a oportunidade de ingressar na instituição como assistente de meio ambiente, passando, posteriormente, a assumir as atividades e a responsabilidade pelo laboratório de sementes. E, em 2021, assumi a supervisão do viveiro; atualmente, coordeno o viveiro, coleta de sementes e laboratório.
O Instituto Terra está construindo um novo viveiro com capacidade de até 2 milhões de mudas, quadruplicando a produção atual. O que essa expansão representa, para você, em termos de visão de futuro para a restauração ecossistêmica?
O novo viveiro representa, para mim, um novo e importante desafio. Não apenas pelo aumento significativo na capacidade de produção de mudas, mas principalmente pela diversificação das espécies com as quais passaremos a trabalhar.
Historicamente, atuávamos focados na produção de espécies nativas para restauração, e hoje assumimos o desafio de produzir também mudas de cacau e café, atendendo às demandas internas da instituição. Essa expansão simboliza uma verdadeira virada de chave, pois amplia nosso campo de atuação, exige novos aprendizados e fortalece a integração entre restauração ecológica e sistemas produtivos sustentáveis. Mais do que números, representa uma oportunidade de crescimento técnico, inovação e aprendizado contínuo.
Ampliar a capacidade de produção muda apenas os números ou também transforma a forma de pensar, planejar e assumir responsabilidades sobre a floresta que está sendo restaurada?
A ampliação da capacidade de produção vai muito além dos números. Ela traz mudanças significativas na diversificação dos produtos. Iremos trabalhar com cacau e variedades de café (conilon e arábica), o que impacta diretamente o planejamento, a capacitação da equipe e a forma de pensar e trabalhar.
Esse novo cenário exige maior responsabilidade, organização e visão estratégica, além de estimular uma mudança de mentalidade em relação aos processos e às entregas. São transformações fundamentais para garantir eficiência, qualidade e sucesso na restauração da floresta.
Com a inauguração do novo viveiro, o que será do viveiro atual? Que papel ele pode ou deve assumir a partir dessa transição?
O viveiro atual continuará cumprindo seu papel. Hoje, as mudas de cacau estão sendo produzidas nele, e parte das mudas de café também seguirá sendo cultivada ali.
Sendo o viveiro historicamente o coração do Instituto Terra, como esse coração se transforma quando a restauração ganha outra escala e novos desafios?
Sendo o viveiro o coração do Instituto Terra, sua transformação acompanha o crescimento e a maturidade da própria restauração. Com a ampliação da escala e o surgimento de novos desafios, esse coração passa a bater mais forte e com mais responsabilidade.
Ele deixa de ser apenas um espaço de produção de mudas para se tornar um centro estratégico de inovação, aprendizado e integração entre restauração ecológica e produção sustentável. Essa nova fase exige mais organização, capacitação da equipe e visão de longo prazo, mantendo viva a essência que sempre sustentou o Instituto, que é o cuidado com a floresta e com as pessoas que a constroem.
Nos últimos anos, como você percebe a evolução do viveiro em relação à articulação entre ciência, planejamento de longo prazo e impacto territorial?
Nos últimos anos, percebi que o viveiro amadureceu com a própria experiência da equipe. A ciência passou a fazer parte das decisões do dia a dia, orientando desde a escolha das espécies até os métodos de produção, sempre pensando no futuro da floresta que está sendo restaurada.
O planejamento deixou de ser apenas imediato e passou a olhar o longo prazo, considerando o local onde a gente atua, suas necessidades e os resultados que queremos alcançar. Hoje, o viveiro não é apenas um lugar onde se produzem mudas, mas um espaço de aprendizado contínuo, troca de conhecimentos e responsabilidade.
A produção de mudas como cacau e café, voltadas aos sistemas agroflorestais do programa Terra Doce, amplia o escopo de atuação do viveiro. O que muda quando restauração e desenvolvimento produtivo caminham juntos?
Quando passamos a produzir mudas de cacau e café para os sistemas agroflorestais do programa Terra Doce, o viveiro amplia seu papel e seu olhar sobre o território. A restauração deixa de ser apenas a recomposição da floresta e passa a caminhar com o desenvolvimento produtivo e a geração de oportunidades.
Que cuidados são fundamentais para que esse novo papel produtivo não dilua, mas fortaleça os princípios que orientam o Instituto Terra?
É fundamental manter a clareza do propósito que nos orienta desde o início. O cuidado começa no planejamento, garantindo que as escolhas estejam alinhadas com a restauração ecológica e a conservação da biodiversidade. Também é essencial investir na capacitação da equipe, no rigor técnico e no acompanhamento constante dos processos, para que a produção mantenha qualidade na entrega.
Quando restauração e produção caminham juntas com ética, conhecimento e compromisso, o viveiro não perde sua essência, ao contrário, fortalece seu papel com as pessoas, com o futuro da floresta e do Instituto Terra.
Muitas decisões importantes que garantem o sucesso da restauração acontecem longe dos olhos do público. Na sua visão, qual é a mais decisiva delas?
São muitas decisões importantes que garantem o sucesso da restauração, como, por exemplo, escolha das espécies que mais se adaptam à região, quando semear, onde coletar, o método de produção. Essas são as decisões que somadas definem a qualidade das mudas, a diversidade da floresta e o sucesso da restauração a longo prazo.
Olhando para o novo viveiro e para esse momento de transição, que legado você acredita que o trabalho desenvolvido hoje pode deixar para a Mata Atlântica e para a restauração ecossistêmica no Brasil?
O trabalho no viveiro é feito de gestos pacientes sobre a terra. Cada semente semeada germina lentamente, carregando quase que um acordo silencioso com o tempo, com a floresta que será transformada e com a vida que insiste em nascer e renascer. O legado não está apenas nas mudas ou na floresta que ajudamos a construir todos os dias, o nosso legado está na capacidade de mostrar para o planeta que somos capazes de transformar positivamente o ambiente e a sociedade em que estamos inseridos.
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