Trabalho de formandos do NERE 2025 analisa a inserção e os benefícios de espécies caducifólias em sistemas agroflorestais em regiões de mata seca
Em regiões marcadas por longos períodos de seca, solos empobrecidos e histórico de degradação ambiental, produzir sem comprometer o futuro é um desafio diário para agricultores. Na bacia do Rio Doce, esse dilema se traduz em uma pergunta central: como conciliar produtividade agrícola e restauração ecológica em um território de mata seca?
Essa foi a questão que motivou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) “Estratégias para a aplicação de espécies arbóreas caducifólias em sistemas agroflorestais na região da bacia do Rio Doce e seus benefícios”, desenvolvido por Ana Carolina Coser Guirre, Arthur Pittol Potratz, Edvaldo de Jesus Ginelli, Gean Rodrigues da Silva e Raissa Araújo Heller, formandos do Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE) 2025.
O estudo analisou a aplicação de espécies arbóreas caducifólias — árvores que perdem suas folhas em determinadas épocas do ano — em sistemas agroflorestais (SAFs) voltados à produção de café e cacau na região do médio Rio Doce.
A pesquisa parte de um cenário conhecido por muitos produtores: diante da escassez de água, da baixa fertilidade dos solos e das condições climáticas adversas, espécies exóticas de rápido crescimento acabam sendo escolhidas como solução imediata. No entanto, esse caminho pode gerar desequilíbrios ecológicos, como competição com espécies nativas, alteração da dinâmica do solo e redução da biodiversidade, comprometendo a sustentabilidade dos sistemas a longo prazo.
Ao longo do trabalho, os estudantes buscaram identificar espécies nativas adaptadas às condições locais e analisar seus benefícios quando inseridas em SAFs. Para isso, combinaram revisão bibliográfica, entrevistas com produtores agroflorestais da região e análise de croquis de plantio já utilizados pelo programa Terra Doce, iniciativa do Instituto Terra voltada ao desenvolvimento rural sustentável.
Além disso, de forma mais específica, o grupo buscou:
- Identificar espécies que tenham potencial de inserção em agroflorestas e analisar seus benefícios;
- Entrevistar produtores agroflorestais do médio Rio Doce;
- Apresentar os benefícios ecológicos das espécies nativas caducifólias em SAFs;
- Indicar a relação dos SAFs irrigados com a adaptação das espécies caducifólias;
- Sugerir estratégias para a implementação de outras espécies nativas ao programa Terra Doce.
Os resultados encontrados indicam que as árvores caducifólias desempenham papel estratégico nesses sistemas. A queda sazonal das folhas contribui para a ciclagem de nutrientes, melhora a fertilidade do solo e favorece a formação de um microclima mais equilibrado. Em culturas como o café e o cacau, isso se traduz em maior resiliência dos sistemas produtivos, melhoria na qualidade dos grãos e redução do estresse hídrico e térmico das plantas.
O estudo também evidencia que o manejo adequado dessas espécies — considerando fatores como irrigação, arranjo espacial e diversidade entre árvores caducifólias e perenes — é fundamental. A irrigação, por exemplo, pode alterar o ciclo natural de queda de folhas, exigindo planejamento cuidadoso para não comprometer a entrada de luz em períodos-chave do desenvolvimento das culturas.

Além dos impactos produtivos, a pesquisa chama a atenção para um efeito muitas vezes invisível, mas essencial: o retorno da fauna silvestre. Produtores relataram o reaparecimento de aves, mamíferos e outros animais, incluindo dispersores de sementes e predadores naturais, o que contribuiu para o reequilíbrio ecológico e até para a redução do uso de insumos químicos em algumas propriedades.
Ao final, os formandos do NERE indicam diversas espécies caducifólias com potencial de ampliação no programa Terra Doce, reforçando que a utilização planejada de árvores nativas em SAFs é uma ferramenta concreta para integrar produção agrícola, restauração florestal e conservação da biodiversidade na bacia do Rio Doce.
Mais do que um estudo acadêmico, o trabalho revela a força da ciência aplicada quando dialoga com o campo e com os saberes dos produtores, apontando caminhos possíveis para uma agricultura mais resiliente, justa e ambientalmente responsável.
Conheça o estudo completo!
Este texto apresenta um panorama dos principais pontos abordados no trabalho conduzido por Ana Carolina Coser Guirre, Arthur Pittol Potratz, Edvaldo de Jesus Ginelli, Gean Rodrigues da Silva e Raissa Araújo Heller. Para conhecer o percurso completo da pesquisa, os dados analisados e as propostas detalhadas, acesse o TCC na íntegra.