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Aroeira em excesso é um problema? 

Estudo de formandos do NERE 2025 analisa a monodominância da Myracrodruon urundeuva (aroeira-preta) na Mata Atlântica

Ao longo das próximas semanas, o blog do Instituto Terra publicará uma série de textos dedicados a apresentar, com mais profundidade, os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) desenvolvidos pelos formandos do Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE) 2025. Cada texto apresenta o percurso, as reflexões e as propostas construídas por um dos grupos ao longo de sua formação. 

Para inaugurar essa série, vamos abordar o tema “Desafios enfrentados em áreas de monodominância de aroeira e possíveis soluções”, investigação conduzida por Daniela Gonçalvez, Gustavo Barth, Jonathas Anacleto, Júlia Sanders e Naiane Mota.  

A inquietação do grupo surgiu a partir da observação de um fenômeno recorrente em áreas de restauração da Mata Atlântica, principalmente no Médio Rio Doce: a monodominância da espécie Myracrodruon urundeuva, conhecida como aroeira-preta.  

Embora nativa de outros biomas, como a Caatinga e o Cerrado, a aroeira tem se comportado como espécie dominante em determinados contextos, como a Mata Atlântica, o que levanta questionamentos importantes sobre seus impactos ecológicos, especialmente em áreas onde o objetivo é promover diversidade e sucessão florestal. Entender esse comportamento tornou-se, portanto, essencial para refletir sobre os desafios enfrentados pelo Instituto Terra e por outras iniciativas de restauração ecológica. 

Diante disso, o objetivo geral do trabalho foi compreender as consequências da monodominância da aroeira para o meio ambiente e propor soluções capazes de favorecer uma maior diversidade de espécies vegetais. De forma mais específica, o grupo buscou: 

  1. Identificar as características da espécie que favorecem sua dominância; 
  1. Analisar os impactos desse fenômeno sobre a diversidade florística; 
  1. Investigar fatores ambientais que contribuem para o crescimento excessivo da aroeira; 
  1. Mapear alternativas de manejo capazes de reduzir a monodominância; 
  1. Analisar experiências já realizadas em áreas onde técnicas de controle foram aplicadas. 

Para alcançar esses objetivos, o trabalho foi desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica, observações de campo, entrevistas e conversas técnicas com profissionais do Instituto Terra, além de análises críticas e discussões em grupo. Esse percurso permitiu articular conhecimento científico, experiência prática e reflexão coletiva — uma marca importante da formação no NERE. 

Daniela Gonçalvez, Gustavo Barth, Jonathas Anacleto, Júlia Sanders e Naiane Mota em campo – Crédito: Kayque Santos
Foto com Moisés Marcelino, gerente operacional e de meio ambiente do Instituto Terra – Crédito: Kayque Santos

Entre as descobertas centrais do estudo, destaca-se o entendimento das características ecológicas da M. urundeuva que explicam sua alta capacidade de dominância. A espécie apresenta folhas compostas e resistentes à seca, flores pequenas, mas ricas em néctar — fundamentais para a atração de polinizadores — e frutos com cálice alado, que facilitam a dispersão pelo vento. Além disso, sua madeira é altamente valorizada comercialmente e possui reconhecido potencial farmacêutico, fatores que historicamente contribuíram para sua proteção e para mudanças em seu status legal ao longo das últimas décadas. 

Do ponto de vista ecológico, o estudo evidencia que a alta eficiência reprodutiva, o rebrotamento vigoroso, o potencial alelopático – efeito que exerce em outras plantas – e a adaptação a ambientes degradados e secos criam condições favoráveis para que a aroeira se torne dominante em algumas regiões. Nesses contextos, a monodominância reduz a diversidade florística, altera as características físicas e químicas do solo e gera um ciclo de retroalimentação que dificulta a regeneração natural de outras espécies. 

A pesquisa também mostrou que fatores ambientais — como períodos prolongados de seca, alta luminosidade e histórico de distúrbios antrópicos — ampliam a vantagem competitiva da aroeira. Ao analisar estudos e experiências conduzidos no próprio Instituto Terra, o grupo concluiu que intervenções pontuais não são suficientes para romper esse ciclo. Ao contrário, são necessárias ações integradas de manejo, que combinem desbaste seletivo, enriquecimento com espécies nativas competitivas, adequações no solo e monitoramento contínuo. 

Desde os anos 2000, o Instituto Terra vem implementando estratégias de manejo florestal voltadas à redução da dominância da aroeira, como cortes seletivos e plantios de enriquecimento. A análise desses estudos reforçou a conclusão de que, quando bem planejadas e acompanhadas ao longo do tempo, essas ações podem contribuir significativamente para o aumento da diversidade e para o avanço da sucessão ecológica. 

Em síntese, o trabalho desenvolvido pelos estudantes do NERE 2025 demonstra que a restauração ecológica exige mais do que boas intenções: ela depende da articulação entre ciência, técnica e gestão ambiental qualificada. Compreender fenômenos como a monodominância da aroeira não significa tratar a espécie como um problema a ser eliminado, mas como um processo ecológico complexo que precisa ser entendido para que decisões responsáveis e eficazes possam ser tomadas. 

Aprofunde a leitura! 

Este texto traz apenas alguns dos principais achados do estudo desenvolvido por Daniela Gonçalvez, Gustavo Barth, Jonathas Anacleto, Júlia Sanders e Naiane Mota. Para conhecer o percurso completo, os dados analisados e as propostas de manejo em detalhe, acesse o TCC na íntegra. 

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