A urgência de transformar práticas sustentáveis em um modelo econômico sólido e legítimo
A sociobioeconomia se tornou uma das palavras mais repetidas na COP30 — e não por acaso. Ela sintetiza a expectativa de que o Brasil lidere uma nova lógica de desenvolvimento baseada na restauração, no uso sustentável da biodiversidade e no fortalecimento de economias locais.
Mas, no centro desse entusiasmo, existe um problema ainda não resolvido: não há consenso sobre o que exatamente é sociobioeconomia — nem sobre como medi-la. E essa definição, se não for bem trabalhada, pode custar caro.
Atualmente, vemos dois riscos claros. O primeiro é estreitar demais o conceito, excluindo justamente os atores que estão na ponta: agricultores familiares, povos tradicionais e a comunidade como um todo, que podem ficar de fora por falta de enquadramento formal.
O segundo risco é o oposto: ampliar excessivamente o termo, permitindo que empresas e projetos que não têm relação real com práticas sociobioeconômicas se apropriem do rótulo — um movimento que já começa a acontecer em algumas discussões setoriais. Essa diluição compromete a credibilidade da pauta.
Por isso, um dos debates mais importantes da COP foi a criação de métricas claras, capazes de diferenciar práticas transformadoras de estratégias de greenwashing. A sociobioeconomia precisa ser tratada como modelo econômico — assim como seu próprio nome sugere —, e não como ação filantrópica. Para isso, tem de dialogar com princípios de mercado, contratos estáveis, remuneração justa e indicadores confiáveis de impacto ambiental e social.
Mais importante: precisa funcionar na prática.
É aqui que surgem os desafios de estruturação das cadeias produtivas, ponto amplamente mencionado nas mesas de trabalho e que dialoga diretamente com a experiência que temos no Instituto Terra, com o programa Terra Doce, implementando sistemas agroflorestais na bacia do Rio Doce.
No programa, quando falamos em sociobioeconomia, queremos necessariamente dizer sobre quatro dimensões:
- Capital natural: ações de restauração e agricultura regenerativa;
- Capital humano: programas de educação que trabalham a formação de indivíduos que fazem parte da comunidade em que atuamos;
- Capital social: fortalecimento das comunidades, o senso de pertencimento e o envolvimento delas em todas as ações do Terra Doce;
- Capital financeiro: estruturação de cadeias produtivas que agregam valor aos produtos dos SAFs e os levam a mercados justos e alinhados ao meio ambiente.
O último — a consolidação das cadeias — é crucial para transformar restauração em renda, autonomia e permanência no território.
E a pergunta que ecoou pela COP foi: como estruturar essas cadeias de ponta a ponta?
As respostas passam por integração de mercado, fortalecimento de cooperativas, redução de atravessadores, logística adequada, certificação, rastreabilidade, governança, financiamento inteligente e, sobretudo, colaboração.
Nenhum ator, sozinho, dará conta da transição necessária. A sociobioeconomia só funciona quando países, empresas, ONGs e comunidades atuam em rede.
O Brasil tem a oportunidade histórica de liderar esse debate — mas isso exigirá coragem conceitual, critérios firmes e compromisso com quem está na ponta da restauração. A sociobioeconomia será tão forte quanto a clareza que construirmos agora.

Por Silvia Paquelet, head de sustentabilidade do Instituto Terra.